segunda-feira, 11 de junho de 2018

Do tempo...




E foi ficando lasso, baço, insosso...
E tudo voltando ao de antes
que já foi e eu já sei...
É que fazia tanto tempo.
O que se faz em dez anos?

Dez anos se vive em um minuto!
Mas também pode ser uma vida inteira.
E uma infindável ansiedade de espera...
Que junta as pontas do tempo.

Foi ali, no dobrar da esquina
de um caminho torto,
A surpresa, o encanto. Depois...
Flores e chocolates,
palavras e mais palavras...
O tempo sempre imensurável.
A vontade sempre infindável.
O sentimento indefinível...

Tinha dias de muitas horas,
tinha dias só de minutos...
E já houve tempo em que o tempo parou.
E tempos desabalados...
E momentos que valeram o tempo...
E tempos que deveriam ser esquecidos...

Mas chegam tempos de fumaça e cinza...
Que vão nublando o horizonte...
E aquelas tempestades coloridas...
Enfumaçando-se e esfumaçando.

E esta é a ação do tempo
Em que o para sempre termina
Naquela ausência de palavras.
Na ausência da luz nos olhos...
E na ausência de cores no sorriso.

E tudo ficando lasso, baço, insosso
Com riscos do mesmo traço,
Que já tinha sido traçado
Sem nenhuma precisão.

 E aquela busca insana
que nunca foi buscada...
Que sempre foi desejada,
a surpresa do inesperado,
a ansiedade do novo de toda manhã
vai se perdendo na rotina.

(Vera, 10/06/2018)


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Libélula





As represas,
Os diques,
As comportas...
Cuidadosamente elaborados.
Meticulosamente construídos,
Paulatinamente reforçados...

As tramas,
Alinhavadas dia a dia,
Os tecidos,
Tramados fio a fio,
Insinuam-se
Silenciosos...

Até que terremotos
Movem catástrofes,
No bater de asas
Da pequena
Libélula.

Em monossílabos





Não
Te
Vás

Eu 
Te
Amo

Eu
Sem
Ti

Nem
O
Sol

Nem
A
Lua

Eis
Que
Sou

 Breu
Do 
Ser

Vi
Ver

Se
Me
Dói

De
Mim

A
Mim

Não
A
Ti...

(JCRB – 30/04/2018)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A curva do seu sorriso


         
Pela linha dos seus olhos quase fechados
Eu acompanho o seu sorriso...
Porque você sorri com os olhos...
É uma das minhas preferências,
O seu sorriso!

Meus olhos baixam
E encontram outras sugestões.
Neste tapete macio que se forma...
Denso, compacto e querido...
Penso as minhas mãos e o meu corpo.

Volto para os olhos que não sabem esconder...
São reveladores,
sempre reveladores.
Raramente a sua boca me diz o que eles expressam.

E neste retângulo vertical,
Que chegou para mim num fim de tarde...
Eu me perco... e perco o tempo.
E vai-se o rumo das horas...
E a atribulação do acúmulo de atividades...
Finjo que não vejo o mundo à volta,
E o universo retangular que se descortina,
é o único universo meu.
Então... pelo efeito borboleta,
“... o bater de asas de uma simples borboleta
pode  influenciar o curso natural das coisas “
aquele sorriso na linha dos olhos,
provoca um tufão do outro lado
do meu mundo interior.

... mas a custo vou saindo do torpor.
E o alarido de uma casa cheia,
O ritmo buliçoso da vida cotidiana,
Os chamados externos,
Que não alcançam o efeito borboleta,
suplantam a tempestade.
Tudo se aquieta.
E eu retorno...

Mas a linha dos seus olhos quase fechados
Continua indicando o seu sorriso...
E eu continuo... “como dois e dois são quatro,
Sei que a vida vale a pena,
Mesmo que o pão seja caro,
E a liberdade pequena.”...
... perseguindo a linha do sorriso.       

(Vera Lúcia, 18/04/2018)

Hai kai para o mural de um pai assassinado.





Para um filho confuso com a dor
Um retrato no muro tem valor,
Mas não apaga a ausência do abraço.