quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Hai kai de Carnaval



O surdo dos tambores
torna surdo
o meu coração.

Interlúdios do olhar...



Olho nos olhos que me encaram
(pelo menos para mim eles me encaram!)
E não me parecem felizes...
Estão tristes, até.
Na boca não há o costumeiro sorriso.
Que deixa bons dentes à mostra...
Os olhos parecem cansados
E na testa há uma ruga...
E uma sensação de silêncio...
E há uma dor em mim... que não termina.
Eu não posso com o silêncio...
Às palavras sei responder.
O silêncio me oprime.
Sei que morrerei de silêncio.
Que é o que me sufoca.
Muitas pessoas evoluídas dizem ouvir o silêncio.
Eu não. Eu sou feita de palavras
E é nelas que navego. Eu preciso delas.
Uma dor física vai encharcando as minhas veias...
Enquanto olho para a imagem
encarando-me... silenciosamente.
Por que não desvio o olhar?
Magnetismos...
O universo sabe o que faço para não sucumbir...
Sísifo não faria melhor... mas como ele... trabalho perdido.
Volto a olhar novamente... geofísica tão cara ao meu olhar.
Sei avaliar os detalhes e sei leituras também.
Mas não sei o que vai no seu coração.
É agonia no meu.
Volto a olhar nos seus olhos.
Ele me encaram... e não estão felizes.
Quase me alegra perceber...
torço para que seja a minha falta...
talvez não seja... quase certo que não...
mas e daí? Seu silêncio não me responde...
Então eu posso sonhar...
Olho para as mãos inertes que fingem trabalhar...
Só fingem porque o que está em ebulição é o cérebro,
E a tempestade que os olhos contêm... a custo.
Chego a ficar feliz de pensar assim...
Então vou atrás de detalhes...
Mas volto aos olhos, iludida com a expressão...
Tão minha, só minha...
Ah, como eu amo esta imagem!
Mas amo mais o que ela representa.
Com um sentimento tão grande
com uma paixão sem limites,
que o tempo e a vida...
são meros detalhes...
amar é preciso... viver não é!!!

Vera Lúcia
(14/02/2018)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Deus é assim mesmo...





Bendita é a receita da sua criação: 
3 doses de sabedoria; 
2 de charme; 
15 de essências de sedução; 

3 de pimenta; 
8 de sagacidade...

O problema é que Deus não é perfeito 
e derramou a tigela de cautela 
inteirinha sem querer...

Deus é assim mesmo.
(F B) 03/02/2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Tempo de amar


Não há tempo consumido
Nem tempo a economizar
O tempo é todo vestido
De amor e tempo de amar

O meu tempo e o teu, amada
Transcendem qualquer medida
Além do amor não há nada
Amar é o sumo da vida

O dom do amor só dura
O tempo de um madurar
Depois vem a vida e leva o amor
Pra outro lugar

Não há tempo consumido
Nem tempo a economizar
O tempo é todo vestido
De amor e tempo de amar

O meu tempo e o teu, amada
Transcendem qualquer medida
Além do amor não há nada
Amar é o sumo da vida

O dom do amor só dura
O tempo de um madurar
Depois vem a vida e leva o amor
Pra outro lugar


(Milton Nascimento)


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

No vácuo dos silêncios.



Tenho a vida suspensa num varal
Anoiteço todo dia com a lua e com você
Todo dia de manhã o sol vem me acordar
Antes de abrir os olhos,
Eu  acordo com você.
Mas é só no pensamento.
É o ritual da distância,
É a rotina da ausência,
Da presença mais presente,
 na impossibilidade real.

Tenho a vida suspensa no sonho.
Todo dia não consigo me livrar
da vontade de ter você por perto.
E então eu me envolvo em pensamento,
Em vestígios, em lembranças,
Em passados...
Que me impedem de seguir outro caminho.

Tenho a vida suspensa na ilusão
De que um dia tudo vai se resolver.
Mas não vai. Será sempre o mesmo abismo
de ansiedades,
de abandonos,
sem destino,
de caminhos solitários, trilhados na multidão.
Vera Lúcia

30/01/2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

No Caminho com Maiakóvski



Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
 (Eduardo Alves da Costa)

(Eduardo Alves da Costa) – Não é de Maiakóvski como se espalha por aí como falsa autoria - principalmente um trecho da segunda estrofe.
(Eduardo Alves da Costa, em “No Caminho com Maiakóvski” [poesia reunida]. São Paulo: Geração editorial, 1ª ed., 2003. págs. 47,48 e 49.)
Fontes: Antônio MirandaJornal de Poesia e referência bibliográfica do livro do autor, graças à colaboração de Elfi Kurten Fenske, criadora do Templo Cultural Delfos.
Não há quem não conheça os 15 versos mais do que famosos:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
Eles fazem parte, desde 1968, quando foram escritos, de um longo poema do brasileiro Eduardo Alves da Costa, que nasceu em Niterói e vive desde a infância em São Paulo. Por algum motivo, foram logo atribuídos pelo escritor Roberto Freire, na epígrafe de um de seus livros, ao poeta russo Wladimir Maiakovski. O equívoco foi corrigido, mas a falsa autoria pegou: os versos foram transformados em pôster pelos líderes estudantis que combateram a ditadura militar, nos anos 70; transformados em inscrição da camiseta amarela da campanha pelas Diretas Já, nos anos 80: e, traduzidos para vários idiomas, transformados em corrente na Internet, nos anos 90. Aí, o autor já não era nem Eduardo nem Maiakóvski, mas Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht, Wilhelm Reich e Leopold Senghor, entre outros.
Eduardo, poeta e artista plástico que já expôs na França na Alemanha, viu o poema impresso – e atribuído a Maiakóvski – na parede de uma galeria de arte em Paris e num café em Praga, na Tchecoslováquia