terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Do livro de histórias da vida...




Às páginas tantas do livro de histórias da vida,
Duas almas gêmeas coincidiram seus capítulos...
E acharam-se de se encantar...
Ele trazia de longas jornadas longas histórias...
Ela trazia longas histórias de longas jornadas...
Que eram de cada um.
E que não eram suas.
Mas o que importa? Encontraram-se!

Era a chegada de tantas partidas...
E coincidiram!
No gesto, no traço e no olhar...
E uma história terceira, intrusa, interdita,
passou a ser escrita.
Numa escrita ágrafa e agramatical.
Sem contornos, sem domínios e sem leis.
Só sentimentos!
Mas também sem volta!

E no livro de histórias da vida os capítulos progrediram...
Atropelados...
Ora corridos... ora  perdidos no tempo.
E, em lapsos de felicidade,
Nos retalhos de paraíso,
a vida a pulsar plenamente.
Porque “... a terra atrasa e os sons diminuem”
quando seus universos se cruzam.
E então se ouve a eternidade insinuando-se pelas veias.

Peripécias, conflitos e tramas... Com dramas!
Ciúmes. Quem disse que o ciúme é mortal?
Às vezes, paralisante. Mas não mata. Só machuca.
E provoca dissabores.
Distâncias, tristezas
saudades, regressos
saídas, silêncios...
Desistência, insistência...
Desencontros, reencontros.
Ansiedades. Uma alma busca a outra sem tréguas.
Intervalos, hiatos.
Os caminhos às vezes se alargam...
cada um fica de um lado da estrada
que não se atravessa.
Dores silenciosas habitam seus dias.

E os capítulos se acumulam.
Não há retornos
porque os caminhos já se cruzaram
as veredas se estreitaram,
em trilhas se entrelaçaram
e  isso  fechou o ciclo.
Se esta vida deu a chance,
é porque deveriam se encontrar.
No livro dos recomeços muitas páginas se contam.
Com a mesma ladainha,
Com a mesma sinfonia,
Com os mesmos recortados
entrecortes de suspiros e silêncios.

Quem disse que almas gêmeas são gêmeas de harmonias?
Às vezes se desgovernam em descaminhos pequenos,
Em arrufos amuados,
Por conta de coisa pouca,
multiplicam dissabores.
Mas vivem afinidades sobre gostos e interesses.
E segredos...
E paixão...
Deslumbramentos...
Admiração...
(admiram-se mutuamente).

Aquele sexto sentido
Que avisa da grande falta,
Que avisa da grande ausência,
Que promove os reencontros,
Nem que seja em pensamentos;
Aquela presença ausente
Que faz transbordar vazios
De todas as horas do dia,
De todo tempo da noite
Acordados ou em sonhos...
Não dorme, está sempre alerta!

Na jornada se confundem
Cartinhas de muito amor,
Poemas de tanto querer,
Mensagens em guardanapos,
Avisos subliminares,
Códigos de textos cifrados,
Textos em códigos secretos...
Sorrisos de coisas mínimas,
Doçuras de encontros loucos,
Loucuras de encontros tortos
Na surpresa da espera.

Outras vezes se escondem
Sentimentos mal sentidos,
Conversas entrecortadas,
Transgressões não transgredidas
e desesperos de sonhos.
Arroubos de ansiedades pela falta da presença,
Criancices de adultos que inventam de se apaixonar.
Mas não há cerca e reserva,
Se o caminho é de almas gêmeas...

E o livro de histórias da vida
vai cumprindo o seu destino.
Anotando em cada página
Sucessos e insucessos
De mais esta caminhada
Nas veredas da eternidade
De duas almas confusas,
Que se buscam e se perdem
Mas sem nunca desistir.

Os dias transcorrem turvos,
Em novelos enovelados...
Cada um por sua parte,
Procura normalizar
O que nunca foi normal.
Está visto, não conseguem!
E as torrentes extrapolam
Os diques bem construídos,
Arrebentam corredeiras,
Sem rumor e sem alarde.

Um dia, de tanto sentir,
Um dia, de tanto guardar,
Um dia, de tanto amor,
Um dia, de tanto esperar,
Levantarão as amarras,
E, num voo libertador,
Deixarão tudo pra trás...
Tudo que não for de si.
E contarão um com o outro,
E contarão um pro outro,
Pelas contas do rosário
Que desfia suas sinas,
A história de amor sem fim
Escrita no livro da vida,
Escrita no livro de histórias
que se contam dos destinos
de cada alma contada,
de cada alma encontrada,
de cada alma perdida,
que passou além da vida,
para encontrar sua outra
indiscutível metade.
Que sem ela nada vale,
Nem terços, nem ladainha,
Nem reza, nem penitência...

Muito além de tudo isso,
Só conta a natureza,
a forma e o conteúdo,
de um que se acomoda
na natureza do outro,
como um vaso que recebe
a essência que o completa;
até que de tanto ser,
até que de muito sentir,
até que  na perfeição
tudo isso se confunda
e o mistério a se fundir
numa única verdade
de duas almas distintas
moldando-se eternamente
numa única certeza
de terem, por todo o sempre,
sido dois pedaços soltos,
à procura do encontro
que em momento supremo,
no gesto mais ancestral
da busca da unidade,
juntam-se esses dois pedaços,
numa natureza só,
totalmente indivisível.

E na pauta do destino,
E no último capítulo,
Fecha-se o livro de histórias
Que conta as histórias da vida,
De duas almas unidas,
No selo de além do tempo,
Para a última viagem
Do traçado indelével,
Escrito antes de ser,
No retorno ao princípio,
Da pura forma de origem
Co’a última linha do epílogo,
Do livro de histórias da vida.

Vera Lúcia
(15/01/2018)

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